terça-feira, 31 de maio de 2011

Livro «Fé nos Burros» - Histórias do homem e do burro em Alfândega da Fé

Um fotógrafo e um médico veterinário percorreram o concelho de Alfândega da Fé em busca de histórias e de modos de vida ligados ao burro. O gado asinino está ainda presente nestas terras de Trás-os-Montes quer como animal de estimação, quer como meio de transporte e auxílio na agricultura. O percurso do fotógrafo João Pedro Marnoto e do veterinário Miguel Nóvoa está agora compilado no livro «Fé nos Burros». A obra é um documentário escrito, fotografado e gravado.

Sara Pelicano; fotos - João Pedro Marnoto | quinta-feira, 10 de Março de 2011

«Aquelas burras são as minhas pernas», diz o Sr. Artur de Soeima, uma aldeia na encosta da Serra de Bornes, concelho de Alfândega da Fé. As artroses há muito que dificultam o andar do Sr. Artur que tem nos dois animais, fiéis amigos. Fazem-lhe companhia e ajudam-no a locomover-se. A sua história é contada no livro «Fé nos Burros», um projecto de fotografia e vídeo de João Pedro Marnoto, em colaboração com a Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA), onde Miguel Nóvoa, veterinário, é secretário técnico da Raça Asinina de Miranda.

Juntos percorreram o concelho de Alfândega da Fé. Encetaram caminho pelo Portugal profundo em busca de histórias, do quotidiano, das tradições que por aquelas terras transmontanas incluem o burro. «Como fotógrafo quis realçar a relação do animal com o homem, tendo em conta que enquanto houver essa relação haverá sempre continuação da espécie. O burro já não é utilizado para trabalho e transporte, mas o que ainda mantém a espécie é esta relação de cumplicidade entre homem e animal», comenta João Marnoto.

Miguel Nóvoa sublinha a importância desta relação homem-aninal, muito presente na iniciativa «Fé nos Burros», e afirma que «esta cultural rural associada aos habitantes das aldeias do concelho de Alfândega da Fé é retratada no livro, permitindo ainda ao leitor, através do texto que acompanha as fotografias, aprender um pouco mais sobre burras, burros, mulas e machos».

Actualmente no concelho percorrido pelos dois autores há um efectivo de 600 animais. Desde sempre o burro teve como função auxiliar o homem nas tarefas agrícolas, sobretudo em terrenos de difícil acesso como são as serras e os vales de Trás-os-Montes. Com o avanço da tecnologia, o gado asinino começou a ser votado ao abandono. «Mas por estas terras ainda se encontra, quer como fiel amigo, como animal doméstico, quer associado a novas economias como o turismo», diz Miguel Nóvoa. 

A utilização do burro para a realização de passeios, mas também a sua manutenção na paisagem junto dos seus donos, assegurando tradições ancestrais, são características deste território, atraindo cada vez mais turistas. Em torno deste animal, de focinho afável, de aspecto pachorrento, pêlo comprido e grosso em tons de castanho, têm nascido também actividades como gincanas, feiras, mostras e desfiles e festivais, como «L Burro I L Gueiteiro», uma síntese dos costumes de Miranda do Douro.

Nos últimos anos, as actividades em torno do asinino ganham novas dimensões, sendo reconhecidas as suas capacidades terapêuticas. A asinoterapia «desenvolveu-se na década de 1970 em países como Inglaterra, Suíça, França e Itália. Uma prática que permite a estimulação cognitiva, física e também afectiva», explica o livro «Fé nos Burros». Na AEPGA já é aplicada esta terapia.

A escrita simples do livro cativa a leitura. Uma fonte de aprendizagem sobre um animal perfeitamente adaptado ao território, que faz parte da paisagem contribuindo também para a manutenção dos ecossistemas. Em «Fé nos Burros» lê-se que «os asininos têm aptidão para o pastoreio, fundamental para a preservação dos lameiros (pastagens permanentes seminaturais, de génese centenária), que se degradam caso não sejam pastoreados». Estes animais contribuem ainda para prevenir o avanço de matos facilitadores da propagaçãode incêndios.

João Pedro Marnoto quis recriar na rua o ambiente de um estúdio de fotografia. Os autores colocaram um pano branco na rua e fotografaram, simplesmente, dono e animal. Um retrato desta relação ancestral. No vídeo que acompanha o livro, Miguel Nóvoa é o fio condutor desta história pelo mundo rural português. «O Miguel fala sobre os burros, mas também mostramos todo o processo de realização deste trabalho que é um documentário sobre o gado asinino do concelho de Alfândega da Fé», conclui João Pedro Marnoto.

O trabalho foi realizado com o auxílio da Câmara Municipal de alfândega da Fé. O processo de distribuição dos livros pelas livrarias está agora a ser empreendido. 

domingo, 7 de fevereiro de 2010

CARNAVAL NO NORDESTE - Tradição e significado

Este Artigo foi retirado do Site dos Caretos de Podence

O Carnaval dos nossos dias, urbano ou rural, remonta, na sua origem, às antigas festas da Natureza, "de fundo agrário" (1), as Saturnais romanas e as Lupercais celebradas em honra de Pan, o deus dos rebanhos. A expressão popular "é Carnaval, ninguém leva a mal" encontra o seu fundamento nos rituais licenciosos próprios destas festividades, uma licenciosidade autorizada que, a par de outros rituais expurgatórios, constitui ainda hoje a sua principal característica. A destruição pelo fogo de figuras alusivas ao passado (tudo o que é velho), o julgamento e queima, em cerimónia pública, do Entrudo, do Velho e de outras figuras míticas, o castigo que os mascarados infligem às mulheres que se atrevem, nesse dia, a sair à rua, a serra da velha, as "chocalhadas", como rito regenerador e fecundante que os espalhafatosos caretos aplicam às mulheres e a crítica social expressa na publicação e encenação dos "casamentos" burlescos e ridicularizantes dos jovens "casadoiros" são rituais expurgatórios deste período de passagem que é o fim do Inverno e a entrada na Primavera. Rituais ainda vigentes, um pouco por todo o lado no Nordeste Transmontano.

Recuando no tempo, podemos encontrar as origens do Entrudo nas antigas festas Lupercais, celebradas na antiga Roma, em meados de Fevereiro, em honra do deus Pan, protector dos pastores e dos rebanhos. Como em qualquer festa digna desta nome, eram permitidos aos festejeiros todos os excessos, no uso e abuso da comida e da bebida e na fuga às normas e comportamentos socialmente instituídos, organizando-se, para tal, em sociedades secretas. As anomias eram praticadas e assumidas pelos próprios sacerdotes, constituindo verdadeiros rituais de apelo à fecundidade, no momento mais propício do ciclo da Natureza, a aproximação do seu rejuvenescimento, a entrada na Primavera. Era também o momento da purificação e expurgação das pessoas e das comunidades, o que se processava pelos rituais de crítica social institucionalizada e a sua divulgação na praça pública.

Apesar da "cristianização" que todas estas práticas festivas sofreram ao longo de dois milénios, podemos entender ser ainda hoje esse mesmo o sentido a dar aos rituais carnavalescos que se podem constatar em algumas localidades do Nordeste desenrolados no Domingo Gordo, Carnaval, Quarta-feira de Cinzas e mais adiante no tempo, a meio da Quaresma.

A crítica social

A crítica social institucionalizada acontece em dois momentos festivos do ciclo do Inverno: nas festas solsticiais do Natal, Ano Novo e Reis e no período de Carnaval. Esta última, que vamos referir, aparece sob a forma de "casamentos" que, apesar de ter sucumbido em muitas localidades, subsiste ainda em outras tantas terras de toda a região bragançana.

Em terras de Mogadouro, os "casamentos" são tornados públicos no próprio dia de Carnaval; "turrear" quer dizer publicar um casamanto, os noivos, os padrinhos, os dotes... Toda a crítica social está contida na forma como o cerimonial se desenrola; os anunciantes escolhem determinados pontos estratégicos para poderem ser claramente entendidos e aproveitam a escuridão da noite para não serem identificados; estão assim à vontade para explorar os pontos sensíveis das pessoas que desejam invectivar, achincalhando-as com a atribuição do respectivo noivo ou noiva, padrinho ou dotes que contraria as suas já conhecidas aspirações ou ridiculamente os contempla.

A público vêm também os "contratos de casamento" em Podence, no Domingo Gordo, ao cair da noite. Aqui os anunciantes assumem o papel de sacerdotes que, acompanhados de numerosa turba de acólitos, se colocam em pontos elevados da aldeia, os dois pilares dos portões do adro da igreja, para aí anunciarem os "casamentos" de todos os solteiros da terra. São estes os visados pela censura. A sua voz é amplificada pelos embudes (grandes funis usados para verter o vinho para as pipas) que, ao mesmo tempo, a distorcem para impedir a identidade dos proclamadores.

Esta acção satírica assume características de natureza social onde o "casamento" funciona mais como um pretexto para se poder dar livre curso à crítica do que como um fim a alcançar com a encenação, isto é, a aproximação dos proclamados noivos. Esta nunca se verifica pelo ridículo que o "casal" anunciado envolve. O importante é que se possa falar de tudo e de todos, num ambiente de permissiva licenciosidade, em que tudo é permitido e consentido. Estaremos perante um momento de escape e de purificação social que a comunidade conserva como absolutamente necessário à sua boa saúde social.

"- Palhas, alhas leva-as o vento!
- Oh, oh, oh...
- Aqui se vai formar e ordenar um casamento.
- Oh, oh, oh...
- E quem é que nós havemos de casar?
- Tu o dirás.
- Há-de ser a Maria rita que mora no bairro do Castelo.
- Oh, oh, oh...
- E quem é que nós havemos de dar para marido?
- Tu o dirás.
- Há-de ser o João da Rua que mora lá em baixo no Porto.
- Oh, oh, oh...
- E que nós havemos de dar de dote a ela?
- Tu o dirás.
- Há-de ser uma máquina de costura, porque ela é uma boa costureira.
- E que é que nós havemos de dar de dote a ele?
- Tu o dirás.
- Há-de ser uma terra ao Souto, para que não saia um de cima do outro enquanto for Inverno."

Toda esta permissividade no dizer e na liberdade de tudo expressar surge naturalmente enquadrada no contexto geral das festas solsticiais, as antigas Bacanais e do Carnaval, as Saturnais, em que as anomias se estendem a todos os outros comportamentos individuais e sociais, desde os excessos de comida e bebida até às danças, rondas, galhofas e pandorcadas.

São momentos que podem ser considerados de escape ou de válvula em que publicamente tudo e a todos se pode dizer sem que qualquer sanção daí resulte e sem que os visados possam levar a mal tais palavras, gestos ou atitudes.

A função das máscaras

O mascarado que nesta região sai à rua nas festas solsticiais do Inverno e no período de Carnaval, assume hoje funções meramente profanas, bem distintas das que estão na origem do seu aparecimento. Sendo na Antiguidade um elemento de ligação entre os vivos e os mortos, entre o homem e a divindade, o mascarado parece hoje desempenhar, de forma inconsciente, as mesmas funções mas, aos olhos do povo, representa o diabo e conscientemente se assume como tal nos gesto e atitudes que toma. Qualquer momento de passagem é crítico para a comunidade que o vive. O carnaval situa-se no momento de passagem do Inverno para a Primevara ou de um ano a outro (segundo o antigo calendário gregoriano o ano começava em Março). Logo, o Carnaval corresponde a um momento crítico para as sociedades agrárias. A presença do mascarado justifica-se assim e a sua acção relaciona-se com a preparação para essa passagem, através do desempenho das suas funções sagradas: purificação das comunidades, pela crítica social; o culto da Natureza, pelas suas atitudes licenciosas relacionadas com o apelo à fecundidade; o culto dos mortos e da divindade com a transformação de uma pessoa humana num ser com poderes que estão acima das normas sociais instituídas.

Por isso, o mascarado activo transforma-se num ser superior, gozando de uma força e liberdade sem paralelo; coloca-se acima de toda a lei humana e, como se se tratasse de um ente sagrado, mas possuído pelo diabo, se liberta de todos os entraves e dá largas às suas faculdades de destruir e de castigar, de troçar e de acariciar, de dançar e de gritar, a seu bel prazer.

Os mascarados de Podence enquadram-se nestas funções: expurgatórias por um lado, ao castigar os elementos da comunidade com as suas "chocalhadas" vioelntas e, por outro lado, propiciatórias, ao tomarem atitudes licenciosas para com as mulheres, outrora consideradas fecundantes, num apelo à fertilidade da Mãe-Natureza, no início do novo ciclo de vida.

O mesmo se poderá entender das funções dos "diabos" que, em Bragança e Vinhais, saem à rua, no dia seguinte ao Carnaval, a Quarta-feira de Cinzas. As atitudes castigadoras que tomam são relacionadas pelo Abade de Baçal "nas Festas Lupercais celebradas pelos sacerdotes de Pan a 15 de Fevereiro, que despidos, tapando apenas as partes genitais com uma tira de pele caprina, recentemente imolada e tinta de sangue, percorriam as ruas, batendo com um chicote em quantos encontravam, principalmente nas mulheres, que julgavam fecundar com estas pancadas" (2). O P. Firmino Martins parece comungar desta mesma tese e confirma as raízes pagãs destes rituais: "Que eram as agonales, as lupercales (...) essa infinidade de festas festas em honra dos deuses protectores dos campos, dos trabalhos, das sementes, dos frutos, intempéries, doenças, dos lares, dos actos de casamento, da guerra, da morte? o sacrifício de pessoas, animais e alimentos? " (3.

A reprodução da vida humana nas suas diferentes fases fundamentais, sobretudo os rituais de maior impacto social é outra das funções dos mascarados, tanto no Solstício do Inverno como no Carnaval. Isso mesmo pode ser observado nas representações teatrais da crítica social da festa dos rapazes de Varge, na encenação do julgamento do entrudo de Santulhão ou nas "cerimónias" dos casamentos de Podence. Em qualquer dos exemplos sugeridos toda a vida da comunidade rural é manifesta, tanto nos utensílios e adereços utilizados como nos significados das mensagens contidas nos rituais.

António A. Pinelo Tiza

Notas
(1) Benjamim Pereira, Máscaras Portuguesas, Junta de Investigações do Ultramar, Lisboa, 1973, pp. 120.
(2) Francisco Manuel Alves, Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, Tomo IX, pp. 301.
(3) Padre Firmino Martins, Folklore do Concelho de Vinhais, 2º vol., pp. 130.

2005-02-08

Carnaval em português

Imagem de Caretos de Podence: usam máscaras rústicas feitas de chapa ou de couro, cabeleira e fato completo montado com franjas de lã colorida em vermelho, verde e amarelo, alternados, duas tiras de couro cruzadas sobre o peito e, à cintura, vários chocalhos.

Os Caretos fazem parte de uma tradição portuguesa muito, muito antiga, e os mais conhecidos são os de Podence e de Ousilhão (Trás-os-Montes), mas também os há noutras zonas, como em Lazarim, na Beira Alta.

Imagem de Caretos de Podence

Dizem que a origem da festa de Podence se perde nos tempos até às antigas Saturnais romanas – celebração em honra de Saturno, Deus das sementeiras.
Procura-se acalmar a ira dos Céus e garantir favores de uma boa colheita. Nesses tempos idos da agricultura de subsistência, a diferença entre a vida e a morte quase se cingia à dimensão da lavra. E a dupla máscara acentua a relação, ao lembrar uma das duas importantes divindades romanas: Jano.

Deus do passado e do futuro e também do presente, senhor dos portões e entrada, da guerra e da paz e dono de todos os princípios. O filho de Apolo, que um dia partilhou o trono com Saturno e conjuntamente civilizaram os habitantes de Itália, levando-os a tal prosperidade que ao reinado chamaram era de ouro, é geralmente representado com duas caras por ser do passado e do futuro, e principalmente, por ser símbolo do SOL , que aparece de manhã e se esconde à noite.

Imagem de Caretos de Podence

Para os Caretos o Carnaval é um ritual entre o pagão e o religioso, tão natural como a passagem do tempo e a renovação das estações. Despedem o Inverno e saúdam a Primavera.

Em Podence, concelho de Macedo de Cavaleiros, todos os anos é assim... Chegado o Mês de Fevereiro, os homens envergam os trajes coloridos (elaborados com colchas franjadas de lã ou de linho, em teares caseiros) escondem a cabeça entre duas máscaras de lata, prendem uma enfiada de chocalhos à cintura e bandoleiras de campainhas e despendem toda a energia do mundo para assinalar o calor e os dias maiores que se prestem a chegar.

Imagem de Caretos de Podence

A imunidade conferida pela máscara, permite aos caretos mergulhar nos excessos, sendo as mulheres solteiras as vítimas preferencias. Encostam-se a elas e ensaiam estranhas danças com conteúdo erótico, agitando a cintura e batendo com os chocalhos nas ancas das vítimas que, para bem do corpo acompanham a dança.

Desde 1985 os Caretos transmontanos percorrem um lento caminho que os levou de Norte a Sul do país e até a ultrapassar fronteiras para actuar na Disneilândia de Paris, no Carnaval de Nice, em França e no Carnaval de Viareggio, em Itália.

Imagem de Caretos de Podence

Sedutores e misteriosos, os Caretos guardam a magia dos tempos em que as histórias junto à lareira franqueavam a entrada em mundos de sonho. A eles tudo se permite; o anonimato dá-lhes prerrogativas, dá-lhes poder. Por dois dias no ano os homens são crianças e quem mais brinca mais poder tem.

Excertos de texto e todas as fotografias retiradas de: Caretosde Podence

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Foram publicados muito discretamente os novos sites da Junta de Freguesia e do Museu Rural de Salselas, sem pompa nem circunstancia... mas valeu a pena, o que conta é o resultado.

Parabens a Junta de Freguesia e a Associação dos amigos do museu que tomaram a iniciativa. Com este passo toda a informação está disponivel formalmente online, permitindo o acesso em qualquer lugar do mundo à informação acerca da freguesia e dos seus usos e costumes expostos no Nosso Museu.



Ficam os links para a sua visita, verá que vale a pena.

Site da Junta de Freguesia de Salselas :http://salselas.jfreguesia.com/index.php
Site do Museu Rural de Salselas http://www.museururaldesalselas.com/index.php

terça-feira, 22 de abril de 2008

Ladroagem insólita. Porca roubada de uma pocilga em Salselas ( Macedo de Cavaleiros)



Não é uma anedota saída da imaginação de um humorista. A historia é mesmo verdadeira e aconteceu em Salselas, freguesia do concelho de Macedo de Cavaleiros.
O insólito aconteceu durante uma pacata noite desta semana, quando os larápios se dirigiram a uma loja situada num pequeno monte fora da povoação de Salselas e roubaram um porca com um peso próximo dos 180 quilos.
O dono da propriedade, Eliseu Dias, ficou surpreendido perante o que os seus olhos testemunharam.
O animal foi morto á paulada e com a ajuda de uma faca na pocilga, sendo posteriormente transportada de maneira desconhecida. Os vestígios do acto de violência eram bem patentes quando o dono da porca chegou á propriedade.
O senhor Eliseu tem 66 anos, é agricultor e recebe uma reforma de invalidez de apenas 160 euros com que sustenta o seu agregado familiar que se compõe de três pessoas.
O animal roubado constituia mais uma pequena fonte de rendimento, uma vez que a criação que habitualmente fazia lhe dava para vender alguns leitões e para consumo doméstico.
A GNR de Macedo de Cavaleiros e o Nucleo de Investigação Criminal de Bragança tomaram já conta da ocorrência, embora não haja suspeitas dos autores de tão inabitual roubo.
Esta é já a segunda vez, no espaço de um ano, que o senhor Eliseu vê o seu sítio de criação de porcos e galinhas invadido pelos amigos do alheio.
[22-01-2005] NN

Macedo de Cavaleiros

PS quer saber o resultado das diligências

Património da CP aproveitado para turismo

Apeadeiro de Salselas poderá fazer parte de um projecto turístico
Apeadeiro de Salselas poderá fazer parte de um projecto turistico
Na reunião de Câmara da segunda-feira passada, o vereador do Partido Socialista, Rui Vaz, questionou a Câmara Municipal sobre as diligências que a autarquia estão a tomar relativamente ao património da CP, existente no concelho. O autarca da oposição mostrou interesse em conhecer o actual ponto da situação relativamente aquela questãoo, porque teve conhecimento que teria havido eventuais contactos entre a Câmara Municipal e a REFER, no sentido de negociar a possível entrega á autarquia daquele mesmo património.

O vice-presidente da Câmara, Duarte Moreno, respondeu que na semana passada se realizou em Bragança um seminário onde foram discutidas areas oportunidades de investimento no âmbito do Quadro de Referência Estratégica Nacional (QREN), a inscrever no Programa Regional de Revitalização do Património. Aí ficou claro que a REFER não dá nada, mas também foi definido que estão em aberto a possibilidade de algumas entidades, pùblicas ou privadas, poderem apresentar projectos destinados a fazer o aproveitamento turístico do património ferroviário da CP. E uma vez que a QREN obriga á apresentação de projectos de alguma dimensão, no que a Macedo diz respeito, a Câmara Municipal mostrou interesse em transformar a via-férrea desactivada que atravessa o concelho e as estações existentes no mesmo espaço em pôlos de atracção turística. O aproveitamento seria tridimensional, ou seja, uma parte dos caminhos-de-ferro seria destinada a ciclovia, outra a percurso pedestre e uma terceira a percurso equestre. A autarquia mostrou ainda interesse em incluir nesse projecto as estações dos caminhos-de-ferro dos Cortiçoos, de Grijó e do Vale da Porca, bem como o apeadeiro de Castelões. De fora ficou o apeadeiro de Salselas, que está em completa ruína.

Segundo o autarca, a estação de Macedo despertou o interesse do INATEL para ali ser instalado um hotel, que fará parte do mesmo projecto, com o objectivo de servir de apoio ao turismo de toda a zona envolvente, a jusante, da albufeira do Azibo, nomeadamente aos museus, rural e de arqueologia, de Salselas, os fornos de cal de Vale da Porca e o de telha romana de Salselas, estruturas onde vai desembocar a via-férrea que será transformada nos referidos percursos pedestres, equestres e ciclovia.

Por: João Branco

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Banrezes - Uma povoação desaparecida


Macedo de Cavaleiros
Uma povoação desaparecida 01-11-2007

Uma epidemia terá estado na origem do despovoamento de Banrezes, perto de Vale da Porca. Hoje em dia restam apenas ruínas e antigos moinhos abandonados. Na memória colectiva popular persiste o medo de ali regressar Carla A. Gonçalves Quem passe junto ao santuário de S. Ambrósio encontra uma estrada em terra batida, de difícil acesso, que não deixa antever o cenário.
Percorrendo o caminho, ao fundo de um vale, emergem vestígios: meia dúzia de casas em ruínas e moinhos desactivados. O lugar, chamado Benrezes, perto de Vale da Porca e Limãos, foi habitado apenas até ao século XIX.

Nas aldeias próximas, raro é o habitante que não tenha ouvido falar em Banrezes, ou Banrez, como alguns lhe chamam. Dizem que aquele é “um local muito estranho”, que “dá medo” e aconselham mesmo a não visitar.

A pouca História existente sobre o local aponta para que uma epidemia de febre tifóide e paludismo tenha estado na origem do seu despovoamento, conforme escreveu Manuel Cardoso, em “Lampaças e Ledra”, subsídios para a história da região de Macedo de Cavaleiros.Já o livro “Santo Ambrósio, de António Fernandes e António de Sousa Araújo, conta que a epidemia terá sido atribuída à lavagem de um caixão que serviria para todos. “A lavagem do caixão contaminou as águas da fonte e do rio Azibo e deu origem à epidemia devastadora de pessoas e animais”, escrevem os autores.

A história ainda hoje persiste na memória de muitos habitantes de aldeias vizinhas que ali teimam em não regressar. Ainda assim, há quem recorde que os tempos em que havia gente.

Armelim Ochôa, de Salselas, fazendo de cicerone, guiou a visita às ruínas, apontando o caminho que outrora diz ter percorrido com os avós, quando o transporte eram os burros, em direcção a Chacim ou a Olmos.

«Carril Dourado»,

Uma empresa de Ovar, a O2 - Tratamento e Limpezas Ambientais, é acusada de ter furtado carris e travessas num troço desactivado da Linha do Tua, num processo judicial que se encontra na fase de instrução, no Tribunal de Macedo de Cavaleiros.

É que foi neste concelho que, em Abril de 2004, uma brigada alegadamente daquela empresa levantou, sem autorização da Refer, 3,7 quilómetros de carril e 5.300 travessas de madeira, avaliados em 480 mil euros.
A população achou estranha tanta movimentação nas linhas e alertou a GNR que viria a identificar o encarregado da obra, que, embora alegasse estar apenas a cumprir as ordens do patrão, viria a ser constituído arguido. A O2, em resposta ao Ministério Público, negou estar envolvida no caso e ficou no banco dos réus apenas o encarregado Valentim Santos.
Daqui se inferiu que este teria agido por modo próprio, com as máquinas e pessoal da empresa para a qual trabalhava, ao longo de vários dias, de modo a roubar carris e travessas da via-férrea. Mas o seu patrão, José Godinho, foi sua testemunha abonatória durante o julgamento.
O tribunal absolveu o encarregado Valentim Santos. Afinal, ele cumpria ordens da O2 e era para a Linha do Tua que esta, através de contacto por telemóvel, o mandara levantar material. Mas, como o arguido era ele e não a empresa, esta não foi condenada.
A Refer avançou então com um novo processo contra a O2 que, apesar de insistentemente contactada pelo Diário de Aveiro para os seus escritórios de Ovar, no Lugar de Olho Marinho, em Arada, nunca foi possível recolher uma reacção a estas notícias.
Os ferroviários já chamam a este processo de «Carril Dourado», por analogia com o «Apito Dourado» do futebol, por nele vislumbrarem indícios de corrupção entre o empreiteiro e estruturas técnicas da Refer.
Decisiva foi a intervenção da população de Salselas, ao alertar a GNR que impediu a continuação dos trabalhos. A Linha do Tua encerrou em 1992 entre Mirandela e Bragança, mas, para as populações da região, a presença dos carris, das estações, das pontes e viadutos é uma memória viva do tempo em que o comboio ali passava e que se recusam a apagar.
Entretanto, a Inspecção-Geral das Obras Públicas (IGOP) quer saber por que motivo este outros alegados caso de corrupção, não tiveram consequências no interior da Refer.
O relatório da IGOP enviado ao presidente da Refer, Luís Pardal, dá por confirmados pagamentos indevidos à empresa SEF - Sociedade de Empreitadas Ferroviárias, propriedade de José Godinho, que também detém a O2.

Refer proibe
ajuste directo

O caso remonta a Dezembro de 2000, quando, devido ao mau tempo, uma derrocada ao km 85 da Linha do Douro, em Ermidas, provocou o descarrilamento de um comboio.
Para desobstruir a via-férrea, a Refer contratou a SEF, sua fornecedora habitual, tendo esta apresentado uma factura de 330.691,53 euros que veio a revelar-se inflacionada. «As horas de máquinas e de mão-de-obra pagas pela Refer corresponderiam, nesse período [11/12/2000 a 5/01/2001], a mais de 24 horas de trabalho/dia, incluindo sábados, domingos e feriados», refere o relatório da IGOP.
O mesmo documento diz que a empresa pública pagou à SEF 473.633,74 euros referentes a serviços que terão sido efectuados em outros pontos da Linha do Douro, mas para os quais não houve autos de medição nem verificação da execução desses trabalhos por parte das chefias da ZOCP (Zona Operacional de Conservação do Porto), o organismo da Refer responsável pela manutenção da rede ferroviária nacional no Norte do país.
A IGOP estranha que a requisição para a execução de parte dos trabalhos tenha sido «redigida em papel timbrado da adjudicatária (SEF) e não, como seria correcto e normal, em papel timbrado do dono da obra, a Refer», refere o documento.
A gestora de infra-estruturas ferroviárias «aceitou também, sem qualquer justificação, o preço unitário da mão-de-obra de “oficiais” a 5.800$00/hora (26,84 euros) - que veio efectivamente a ser facturado -, quando o preço unitário constante da proposta da adjudicatária era de apenas 3.270$00 (16,31 euros)».
Esta divergência de valores, segundo a IGOP, significou um sobrecusto de 12.629,56 euros, «quantia, assim, indevidamente paga à SEF pelas 1.200 horas de trabalho», que, ainda por cima, não foram todas realizadas.
«Não obstante o elevado valor dos dinheiros públicos que, desta forma ligeira e muito pouco transparente, saíram dos cofres da Refer, esta questão manteve-se “adormecida” no seio da empresa pública durante três anos e meio», sublinha a IGOP aludindo aos mandatos de Cardoso dos Reis e de Braancamp Sobral.
Seria, então, o seu sucessor, Brancaamp Sobral, a instaurar um inquérito no seguimento de notícias então saídas na comunicação social. O processo, porém, haveria de transitar para a administração seguinte, presidida por Luís Pardal, que proibiu que fosse dada ordem para que não fossem adjudicados contratos por ajuste directo à empresa SEF.